Fernando “Tainhanarede” Alexandre Guimarães Silva

Maceió (10/3/1950) – Florianópolis (7/4/2021)

Fernando Alexandre Guimarães Silva foi jornalista, poeta, dicionarista e agitador cultural

 

POR RODRIGO GARCIA LOPES

Fernando Alexandre Guimarães Silva, o “Fernandão”, como era conhecido por seus muitos amigos, tinha uma ligação profunda com o mar. Pisciano, filho de um dentista e de uma dona de casa, nasceu em Maceió (AL) em 10 de março de 1950. Uma das lembranças mais vívidas da infância era atravessar o quintal de sua casa, a avenida beira-mar e ir tomar um banho antes de ir para a aula, ritual que se repetia quando voltava. Teve formação religiosa, estudou em Colégio Marista e aos 16 anos trabalhou em uma rádio em Maceió. Em 1968, em plena ditadura militar, foi para Curitiba estudar Jornalismo na Universidade Federal do Paraná. Passou frio, trabalhou em vários jornais simultaneamente, graduou-se em 1972 e mudou-se para Florianópolis. Na ilha, onde morou até 1974, trabalhou no jornal O Estado. Depois, passou uma temporada em Belém e decidiu mudar-se para São Paulo. 

       Durante os anos na Pauliceia ele trabalhou no Shopping News e, por dois anos e meio, foi editor da Gazeta de Pinheiros. Um dia ele decidiu cobrir a inauguração de um pequeno teatro no bairro que faria história: o Lira Paulistana (1979-1986). Saiu do emprego e, junto com Wilson Souto, Chico Pardal, Riba de Castro e Plínio Chaves, mergulhou fundo na nova aventura. Logo o Lira passaria a funcionar não só como casa de shows, mas cinema, teatro, jornal, editora e gravadora. Em 1981 criou o Jornal do Lira, que chegou a ter uma tiragem de 30 mil exemplares e foi um dos primeiros guias de cultura e lazer do Brasil. O tabloide funcionou por apenas um ano, mas tempo o bastante para influenciar outros jornais e cadernos culturais de São Paulo e revistas como a Vejinha. O jornal publicava autores como Caco Barcellos, Caio Fernando Abreu, Maria Rita Kehl e Paulo Caruso. Logo o Lira Paulistana virou um dos principais espaços culturais alternativos de São Paulo e o palco principal da chamada Vanguarda Paulista. Pelo selo da gravadora do Lira saíram os dois primeiros discos de Itamar Assumpção, de Cida Moreira, grupos como Rumo, Língua de Trapo, Premeditando o Breque, Patife Band, entre outros. Nessa época, inventou o impagável personagem Professor Delyra, “um astrólogo anarquista que previa o passado e sentia saudades do futuro”. Com ele, chegou a ter uma coluna em um programa da TV Record.

      Na metade dos anos 80 voltou a viver em Curitiba, onde foi assessor de imprensa da Fundação Cultural. Boêmio, “de esquerda mas sem ser engajado”, trabalhou na TV Iguaçu, em O Diário do Paraná, O Estado do Paraná, Indústria e Comércio, sucursais da Veja e da Folha de Londrina. Em 1988 conheceu a artista gráfica curitibana Andrea Ramos. Apaixonados, foram convidados por um casal de amigos, Hieronymus Parth e Marlene Miranda, a conhecer a praia do Saquinho, em Florianópolis, no extremo sul da ilha. Deslumbrados pela natureza local, os dois juntaram as economias e compraram um terreno. Aos poucos, foram erguendo uma casa sobre um rochedo, e um deque que dava para a imensidão do mar. Andrea lembra: “Em noites de vento nordeste só conseguíamos dormir com os ouvidos tampados. Desta época vem o haicai dele: `Ventos de outono / na madrugada / acordam meu sono´”. O casal viveu por três anos e meio no Saquinho, sem eletricidade nem telefone, mergulhados no cotidiano simples e mágico da pequena comunidade e seus personagens.

       Em 1992, por questões práticas de trabalho, mudou-se para a Costa de Dentro, em uma casa encravada na Mata Atlântica, alternando temporadas de trabalho entre Curitiba e Floripa. Ele e Andrea criaram uma editora, a Cobra Coralina Edições. Fascinado pelo linguajar local, um dia Fernando teve a ideia de fazer um dicionário que agregasse o vocabulário e expressões usadas pelos nativos de Florianópolis, os “manezinhos”. Nascia um grande sucesso, o Dicionário da ilha, falar & falares da Ilha de Santa Catarina, seguido pelo Dicionário do surf – a língua das ondas.  Em sua última edição, de 2017, o Dicionário da Ilha já contava com 3.732 verbetes, tendo vendido 57 mil exemplares desde sua primeira edição. “Resgatar a linguagem do falar ilhéu se tornou um tipo de resistência da cultura catarinense”, disse o escritor em entrevista à Folha de S. Paulo, em 27/2/2019. Profundo conhecedor e entusiasta da cultura ilhoa, nos anos 2000, também com Andrea Ramos, criou a Agenda da Ilha (com várias edições), Agenda de Curitiba, o blog Tainha na Rede (2007) e o site Tainha na Rede (2010), um verdadeiro portal do mar, a partir do mote da pesca da tainha, que ocorre todo outono. 

       Cativante, irreverente e generoso, de espírito libertário, Fernando era um verdadeiro contador de histórias, mas tinha também o dom raro de saber escutar. Uma das coisas que mais gostava de fazer era sentar num boteco, de preferência de frente ao mar e, como ele dizia, “jogar conversa dentro”. A quem expressava a vontade de visitá-lo em seu refúgio bucólico na Costa de Dentro, sul da ilha, disparava: “Luz acesa, porta aberta e cozinha 24 horas!”. No telefone e pessoalmente, suas primeiras palavras geralmente eram “Conte tudo, não esconda nada”. Foi sobretudo um espírito agregador, uma ponte ligando pessoas, amizades, ideias e projetos. Não foram poucos os casais, parceiros e amigos que se conheceram através do Fernandão. Nos últimos anos, com sua mobilidade progressivamente reduzida e sem poder sair de casa, mantinha o bom-humor. Sempre ouvindo música e rodeado pela gata Olívia, adorava receber amigos para jantares, festas e cantorias. Desde o começo da pandemia sofria com a situação política e sanitária do país e com o distanciamento social imposto pelo vírus. “Sou dependente químico de pessoas”, ele se definia. No começo de março, após tomar a primeira dose da vacina, avisou aos amigos que eles teriam de “aguentá-lo” por mais algum tempo. “Enquanto há vento, molha-se a vela”, costumava dizer.

      Sobre ele escreveu o escritor e jornalista Ademir Assunção: “O Fernando Alexandre foi uma das figuras mais alto astral que já conheci. Sempre com uma tirada irônica para encarar essa vida que, claro, `podia ser melhor´, como cantava Leminski. Mas ele honrou sua passagem por este planeta. Foi um dos fundadores do Teatro Lira Paulistana, espalhou poesia por todo canto até haicais em calcinhas , dicionarizou os falares e dizeres dos ´manezinhos´, se refugiou no povoado do Saquinho, no extremo sul da capital catarinense, deu uma banana para yuppies e neoliberais, viveu do jeito que quis”. O importante, segundo ele dizia, é “nunca perder o brilho no olho”. Para o amigo Jaques Brand, “ele era claramente um filho de Netuno, senão a encarnação do próprio Poseidon, nessas praias do Sul. `Na dobra azul de um golfo pensativo´, como no verso de Raul de Leoni, que ele amava”.

      Ativo nas redes sociais, sobretudo no Facebook, ele também fazia atualizações periódicas em seu blog e organizava um livro de poemas. Faleceu no último dia 7, Dia do Jornalista, de falência múltipla de órgãos. No dia 10 de abril, em uma bela e pequena cerimônia ao pôr-do-sol, suas cinzas foram jogadas no mar do Pântano do Sul por dois amigos pescadores, Quirino e Dario, que foram seu Caronte em sua última travessia. Deixa uma filha, Tupá Guerra.

       

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Rodrigo Garcia Lopes é poeta, romancista, tradutor e compositor, autor de O enigma das ondas (Iluminuras, 2020)

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