Os fotógrafos Luiz Prado e Egberto Nogueira, em foto do colega Juvenal Pereira

Quase sempre eu tava perdidão na sala quando escutava um sussurro lá no portão.
“Tabê? Tabê?”.
Era o vizinho, o Luiz Prado, me chamando da grade. Eu só conseguia ouvi-lo quando apurava mais o ouvido e distinguia as sílabas finais de Jotabê. Desde que o conheci, há quase 30 anos, nunca ouvi o Luiz Prado falar alto, berrar. Tinha um vozeirão, mas preferia sussurrar. Morei uns quatro anos ao lado da casa dele, ele nunca ergueu a voz com filho, com vizinho chato, com cão, com ninguém.
“Tem umas frutas e legumes aqui pra vocês”, ele me dizia.
No trabalho que o Luiz fazia para uma cooperativa, ele chegava às vezes carregado de frutas e verduras. Separava umas em sacolas e levava até a minha casa. Dividia com todo mundo da vizinhança.

Conheci o Luiz Prado em 1993, debaixo de porrada. Eu tinha acabado de entrar no jornal O Estado de S.Paulo e um dia, no metrô, achei no chão uma filipeta de um negócio chamado Dezembro Oi. Era um flyer convocando para um festival de punk rock que iria rolar lá em Ermelino Matarazzo num sábado à noite, num galpão chamado Sociedade Recreativa Comunitária Boiurussu. Não era exatamente um convite, não tinha endereço nem local nem horário. Dizia apenas que haveria um encontro no metrô Carrão por volta das 21h de sábado. O problema é que o negócio era patrocinado pelos skinheads. Parecia arriscado.

Vendi a pauta, o editor me disse algo suavemente compreensivo, mas no fundo os olhos dele diziam ‘vai em frente, doidão’. Conversei com a fotografia, ligaram para o Luiz Prado para escalá-lo como minha vítima auxiliar.
Ele combinou de me encontrar no metrô no horário escrito no flyer. E assim foi.
Ficamos lá um tempo parados, até que vimos os carecas chegando com seus coturnos e casacos de couro na passarela.

Fui até eles e me apresentei. Eles acharam bizarra minha intenção, mas resolveram confabular para saber se deixavam a gente ir junto, imprensa era tudo cagueta (e ainda por cima escrevia o nome das bandas errado, Vírus 24, em vez de Vírus 27).
Deixaram, mas mandaram dispensar o motorista do jornal.
Fomos de metrô com eles até Ermelino. Um carro nos aguardava e seguimos espremidos entre os carecas.

O local era todo cercado por carecas, tinha uma segurança exclusiva deles porque vivem às turras com outros grupos.
Havia um bocado de banda para tocar e, conforme tocavam, o pau comia na pista.
Era na pista o batismo dos novatos, e sobrava coturno, soco e dente quebrado pra todo lado. Depois de levar uns chacoalhões, eu subi no balcão com minha cerveja e, como ninguém reclamou, fiquei lá. De cima, eu via o Luiz Prado no meio de todos os punks, levando botinada, a máquina fotográfica voando para cá e para lá, e ele não saía. Nem piscava. As fotos depois pareceram um balé furioso.
Depois dessa pauta, viramos amigos. O cara era destemido. As fotos dele da Amazônia estão entre as mais lindas que conheço.

Um dia, quando eu morava na Vila Beatriz, o aluguel subiu demais e resolvemos mudar para o outro lado da Praça das Corujas, uma casa menor.
Estava eu lá na nova casa arrumando os cacarecos nos lugares quando vem ele descendo a rua de bicicleta.
“Tabê? Que tá fazendo aqui?”.
Mudei pra cá, expliquei, aluguei esse barraco aqui. Ele riu da coincidência, a casa dele era colada na nossa.
Fiz uma fogueirinha na rua no primeiro dia para comemorar a nova vizinhança, e o Luiz trouxe umas cervejas.
Foi só então que comecei a conhecer a turma dele, a valente Lena, a mulher, e seus filhos Veridiana e João (do casamento com a Tânia), inteligentes e hipereducados. Mais tarde, também a Nina, a filha mais velha do Luiz (e da Marta Lins) que chegou de Byron Bay, da Austrália, com as filhas, as maravilhosas Serena e Juma, e o marido, o grande Simeon, um sujeito em movimento perpétuo em todos os sentidos e que adora conversar.

A gente costumava se encontrar no Masp para protestar e reivindicar em prol das causas que julgávamos mais justas, estivemos com nossa molecada em diferentes frentes de ativismo. Luiz era um progressista natural e sofria com o encruamento da situação do País. Nunca o vi expressar qualquer tipo de preconceito ou ranço de classe ou de hierarquia.

Preocupado com a segurança no bairro, um dia o Luiz comprou um dobermann, o Fidel, cujo latido veio se somar aos da Panqueca e da Preta, minhas cachorras, e a sinfonia até nos trouxe problemas com alguns vizinhos.
Foi então que o Luiz começou a desenvolver os sintomas da ELA (esclerose amiotrófica lateral), que paralisou primeiro o braço e progressivamente foi tomando o corpo todo. Ele tornou-se aplicado nos exercícios, na fisioterapia, e ele e a Lena saíam menos para a praça com o aumento das dificuldades de locomoção dele, e logo a gente começou a se ver menos.
Quase simultaneamente, nosso chefe de redação na época, o Nirlando Beirão, também foi acometido da ELA, e acompanhei dos dois lados da vida (pessoal e profissional) o impacto desse mal terrível na vida de uma pessoa. Nirlando escreveu um livro, Meus Começos e Meu Fim (Companhia das Letras) no qual registra o desenvolvimento de sua doença e suas reações a ela.

A Nina, filha do Luiz, chegou para visitar o pai e mostrou angústia por viver tão longe do coroa naquele momento.

Foi quando nós nos mudamos de novo, agora para a Vila Mariana, em busca de mais espaço.
A última vez que nos vimos ele apenas sorriu e assentiu com os olhos para uma proposta que eu e o Juvenal lhe fizemos, que acabamos não concretizando.

Luiz Prado morreu nesta segunda-feira, de complicações da ELA.
Eu quero apenas deixar registrado aqui que foi uma alegria ter conhecido um espírito tão nobre, um cara de tanta generosidade, inteligência e que articulou uma compreensão do mundo como território livre.

2 COMENTÁRIOS

  1. Marina, a Nina, filha mais velha do Luiz é minha filha. Sou Marta, a primeira mulher do Luiz. Fica aqui a correção.
    Obrigada pela homenagem prestada ao Luiz. Realmente, ele foi um grande cara e muito querido por todos. Impossível não rir ao se lembrar de suas histórias.
    Ele não veio para essa vida a passeio. Vai deixar muitas saudades e histórias para nós contarmos

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