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Muitos leitores me pedem para explicar porque, conforme o tempo avança, a mística de Belchior só faz crescer. Pensei muito nisso nos últimos anos, há diversas explicações que parecem razoáveis, mas quase nenhuma é plenamente satisfatória. Geralmente, esse tipo de pós-vida no mundo artístico é regado pela febril redescoberta da personalidade de quem se foi, algo que, em muitos casos, já era uma coisa fulgurante e carismática em seu auge.

Eu estive no túmulo de Jim Morrison em Père-Lachaise. Aqueles garotos tomando vinho e tocando violão sobre a lápide quebrada do Rei Lagarto sabem que a fagulha de seu incêndio existencial foi acesa décadas antes mesmo de seu nascimento, naqueles dias em que Morrison quebrava tudo no palco e saía arrastado pela polícia e exorcizava as figuras paterna e materna.

Eu fui a quatro shows de Amy Winehouse. No caso dela, parece ter havido um fenômeno inverso, a auto-imolação que Amy fazia em  público mobilizou mais os cultores do sensacional do que seu desaparecimento precoce foi capaz de fazer. Há muita influência dela em cantoras da atualidade, é facilmente perceptível, porém não aconteceu (ainda, ao menos) o culto à personalidade, a ressuscitação.

Mas nenhum caso estelar é remotamente parecido com o caso de Belchior. Quando comecei a escrever Belchior – Apenas um rapaz latino-americano (Todavia Livros, 2017), três anos antes da morte do cantor de Sobral, não havia ainda badalação, só folclore e alguma voracidade tablóidica. Algo que, inclusive, o afastou ainda mais da possibilidade de um retorno, segundo contam interlocutores com os quais conviveu nos últimos anos de sua vida.

Belchior era tranquilo e discreto, instrospectivo e reflexivo, embora se transmutasse no palco, como sempre lembra o seu parceiro Jorge Mello. Uma pomba gira o possuía na ribalta, virava outra pessoa. O magnetismo de sua figura, sua história e a névoa que encobre os últimos dias de sua vida estão sendo examinados em novos livros, novas músicas, em muitas lives, em novos ensaios e artigos. Até no BBB21 Belchior compareceu: os “bróders” cantaram Sujeito de Sorte no jardim outro dia.

Interessante mesmo é notar que o hype em torno de uma figura da dimensão de artistas assim possui alguns lados muito peculiares, além de fazer uma espécie de Justiça ao próprio talento daquele personagem. O hype vai clareando e provocando o debate e a revisão em torno de questões esmaecidas, despercebidas, sonegadas. Antonio Carlos Belchior nos colocou frente a diversas indagações com sua música, mas em seu epílogo ele nos pôs frente a uma encruzilhada muito antiga (que tomamos como nova) e sempre desconcertante: quanto de arbítrio possuímos sobre nossa passagem por esse mundo?

Um outro efeito colateral da súbita badalação é que novas histórias sobre aquele artista hypado vêm à tona. Eu fico particularmente atento a esse aspecto. O cantor e compositor Tiago Araripe, grande aríete da inventividade, ex-Nuvem 33, me chamou a atenção outro dia para uma postagem em seu blog. Lá, a seu pedido, um amigo seu e parceiro, José Luiz Penna, rememorava as circunstâncias de seu primeiro encontro com Belchior e a criação de Comentário a Respeito de John, uma das grandes canções do cancioneiro belchioriano (a autoria é de Belchior e Penna). A música é do disco Era uma vez um homem e o seu tempo, de 1979.

Comentário a respeito de John, contou José Luiz Penna, foi uma “tentativa de cura, pois de médico e louco todos temos um pouco”. Ele lembra que, naqueles dias, havia um ator que contracenava com ele no musical Hair (de 1967, escrito por James Rado e Gerome Ragni) que entrou em surto psicótico e lhe confidenciou “estar conectado na frequência de (John) Lennon, recebendo mensagens constantes e exaustivas”, e isso o torturava por não conseguir relaxar. “Fiquei penalizado e resolvi, à minha maneira, tentar ajudar. Fiz uma cancão-oração pra que a gente cantasse repetidas vezes, e assim fizemos, sem qualquer resultado: o amigo se suicidou anos depois”.

Belchior ouviu a canção quando o grupo em que tocavam Penna e Tiago Araripe, o Papa Poluição, abriu um show dele no Sesc, no Teatro Anchieta, na Rua Dr. Vila Nova. O cearense pediu autorização a Penna para cantar a música, mas com algumas modificações. “Meu amigo Belchior fez-se co-autor ao trocar frases do próprio Lennon – como ‘Pra que tudo recomece, basta que eu mostre o nariz’, que substituiu por ‘Sonho, escrevo em letras grandes pelos muros do país’ -, melhorando e dando amplitude ao comentário”, contou Penna. Confesso que não conheço o contexto em que Lennon teria dito a frase mencionada, pesquisei e não a encontrei.

Tiago Araripe contou que tinha conhecido Belchior no apartamento do compositor e músico Marcus Vinícius, numa noite fria do inverno paulistano. Marcus Vinícius produziu, em 1974, o sensacional disco de estreia de Belchior, que todos chamamos de Mote e Glosa (o Álbum Branco dos Beatles também não chama White Album, chama The Beatles, entendem?). Tiago lembra que, ao entrar no apartamento de Vinícius, viu ali na sala um sujeito alto e encorpado, de barba, com gorro e casacão felpudo que lhe ia até as canelas, fumando cachimbo.

“Imaginei um imigrante de algum país remoto. Um russo, talvez. Só quando começou a falar identifiquei, de imediato, o sotaque cearense. Lembro de duas de suas músicas, que cantou na ocasião: Apenas um rapaz latino-americano e Como nossos pais. Não fiz a menor ideia da projeção que teriam”.

O grupo Papa Poluição, que Penna e Tiago Araripe integravam, chegou a abrir shows do artista cearense. Tornaram-se muito amigos. “Era uma pessoa disciplinada. Costumava ser o primeiro a chegar ao teatro, para sentir o ambiente. Muitas vezes, depois da passagem do som, preferia ficar no camarim até a hora do show, diferente da maioria dos artistas e músicos que conheço, que optam por se preparar em casa e chegar ao teatro poucos minutos antes do espetáculo. Alimentava-se frugalmente e parecia não sentir fome. É o que pude perceber quando almocei com ele certa vez, no Bixiga”, contou Tiago Araripe.

Araripe, hoje vivendo em Portugal, lembra que, na época, Belchior tinha um escritório “bem instalado” na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio. “Num dos meus aniversários, houve uma festa meio improvisada com os amigos. Eu morava num sobradinho de fundos da rua Wisard, na Vila Madalena. Havia muita proximidade entre os artistas que viviam ou simplesmente circulavam no bairro. Em momentos distintos, vi chegarem à festinha duas pessoas que me causaram feliz surpresa. Um era o grande músico Paulo Moura. O outro, Belchior”.

Nesse relato, nota-se o percurso de Belchior na lapidação de uma de suas joias musicais, percebe-se um método (que reúne um pouco da mecânica do ready made da arte pop), uma delicadeza, um alargamento de coisas fronteiriças. Para Belchior, a canção que ouviu continha algo que quase ninguém mais ouviu. E era algo que continha perenidade. Talvez a grande mágica do fenômeno Belchior seja justamente essa: a de ter conduzido, sem estardalhaço e talvez até sem intenção,  pessoas de diferentes expectativas e gostos para o desfiladeiro de suas artimanhas, a emboscada certeira de suas canções, sua música e seu artesanato. Não precisamos estimá-lo para gostar de seu som, mas pouco a pouco não nos restará alternativa a não ser a rendição a esse joalheiro das contracorrentes.  Ele vai viver ainda muito além de tudo isso que vemos agora.

3 COMENTÁRIOS

  1. Caro Jotabê, fico honrado pelas suas palavras a meu respeito. Texto brilhante. Só quero fazer um pequeno ajuste. Naquela postagem que publiquei no blog Aqui Estamos Nós existem dois sujeitos. O primeiro é José Luiz Penna, querido parceiro, que narra como surgiu a música “Comentário a respeito de John” e como se deu a parceria com Belchior. O segundo sou eu, que descrevo como conheci Belchior no apartamento de Marcus Vinícius e alguns aspectos da convivência com Bel em São Paulo. Os respectivos textos estão assim assinados, embora eu reconheça que, na edição, não tenha ficado muito claro. Abraço.

    • Querido Tiago! Grato pela mensagem, vou ajeitar rapidamente o texto para não deixar dúvidas! Um grande abraço, sei que vem aí o novo trabalho e já estou aguardando!

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