O escritor e cineasta Francis Vale o chamava de Barra Limpa. Cabeludo e jovem-guardista, uma vez foi expulso de uma tertúlia em Fortaleza por usar cabelos compridos e uma camisa vermelha berrante. Adorava os cegos cantores do centro da cidade, e de um deles, que se fazia acompanhar por uma cabocla magra vestida de chita e coque nos cabelos, até lhe decorou os versos:

“No caminho de Messejana
Quem encontrar um lenço, é meu
Com uma inscrição na ponta
Foi Maria quem me deu”

Morreu nesta segunda-feira em Fortaleza o poeta, arquiteto, compositor, artista gráfico e agitador cultural Antonio José Soares Brandão, que o mundo cultural conhecia apenas como Brandão. Ele era co-autor de um sem-número de canções de artistas da geração que ficou conhecida como Pessoal do Ceará – Fagner, Ednardo, Rodger Rogério, Augusto Pontes, Fausto Nilo, Belchior, entre outros.

Sólido intelectual nordestino, filho de um fiscal de rendas louco por livros, ele travou conhecimento desde cedo com obras como Ramayana e Mahabharata, livros de Ovidio, Cervantes, Padre Vieira, Camões, Coelho Neto, Horácio. Na juventude, frequentou o mesmo Liceu do Ceará que Belchior e, estudante de Arquitetura, integrou os principais focos de movimentos estudantis de Fortaleza (onde sua família se estabeleceu em 1955), como o Centro Popular de Cultura.

“No meu entendimento, estava vivendo em uma cidade inundada de música, uma música inundada do sentimento popular da própria cidade, música que vagava pela semi-escuridão das ruas como o mesmo ar que todos respirávamos”.

Foi um dos artífices, com Ednardo, do movimento que ficou conhecido como Massafeira, em 1979, que lançou as bases de uma nova cena artística no Ceará (com inovações no campo da música, cinema, teatro, poesia, cordel, xilogravura, artesanato, dança). Foi Brandão o desenhista do logotipo do Massafeira, que tinha ao lado os dizeres “som, imagem, movimento, gente”. O trabalho o levou a ganhar uma comenda de mérito pela Assembleia Legislativa do Ceará.

Escrevia canções que marcaram época, como Beleza, que virou a canção-mestra do disco do mesmo nome de Fagner, de 1979:

E quando se vê o arame que amarra toda gente
Pendendo das estacas sob um sol indiferente
Beleza só depois de uma sangria desatada
Aberta na ferida dos perigos do amor

Como articulista, mantinha em seu texto o senso poético da palavra e do delírio, para emprestar uma definição oitentista do Pepe Escobar: “Foi exatamente nesta época que deixei de beber socialmente para, em meu entendimento, beber para proteger o que restava da minha lucidez”, escreveu, sobre a repressão política no governo militar.

Politicamente, seu pensamento era revolucionário e antecipador: “Mas naqueles tempos o patriotismo militar partia da premissa de que o país tinha obrigatoriamente que ser governado por suas elites (era como se denominava a classe dominante), o que já abrangia abertamente um conceito de exclusão, francamente compatível com a ideia dos reacionários de que a pobreza era um determinismo”.

Artista múltiplo, refinado vivente dessa Terra, para lembrar sua passagem nada mais justo do que deixar um belo trecho do poema Frio de Serra, que foi feito canção por Petrúcio Maia e cantado por Ednardo, Fagner e Marta Lopes:

“Pela mão do poste velho
Vou descer o barranco desfeito na luz
Cantar para quem não vai me ouvir
Sentar na estrada
Contar o meu dinheiro
Arrumar o cabelo e seguir

 

 

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