Vi Marcinha pela primeira vez atrás do balcão do Napalm. À época, ela era simplesmente, ou assim me foi dito, a Marcinha Punk. Eu tinha ido ver um show de um projeto novo dos ex-colegas de colegial, os então Titãs do Ié-Ié,  num lugar para mim muito novo, embaixo do Minhocão, o Napalm. Uspiana, no segundo ano de um curso que não me parecia mais interessante e muito isolado no campus, psicologia, eu só tinha ouvido falar de punk pela revista Pop e sabia que estava acontecendo alguma coisa em São Paulo, mas eu não conseguia encontrar.

Esse dia no Napalm mudou radicalmente a minha maneira de ouvir música, nem tanto por causa do show, mas pelo que vi de gente da minha idade com uma concepção estética dura, angulosa, e o que eu aprendi sobre música nova na pista de dança. Lembro com precisão: “China Girl” e “Modern Love”, do Bowie, “Call Me”, Blondie, “Ever Fallen in Love”, Buzzcocks, alguma dos Ramones.

Marcinha, linda de cabelo raspado, preto dos pés à cabeça, era uma espécie de beleza feminina intrigante para mim, então uma universitária de 19 anos. Uma agressividade sexy, por assim dizer. Se para mim esse foi o começo de uma guinada que acabou me fazendo virar jornalista e mergulhar no que chamávamos de “o underground paulistano”, ela, mais ágil, artista e, certamente, bem mais livre do que eu, já tinha uma trajetória noturna considerável no início dos anos 1980.

Ao longo da década de 1980 e início da seguinte, seriam inúmeros shows, dezenas de casas noturnas e festas nas quais eu encontraria a Marcinha, agora Montserrath, com sua enorme alegria de viver, sua risada franca e uma doçura sempre agregadora. Essa cena de shows & casas noturnas de São Paulo que já não poderia mais ser chamada de punk e assumiu uma variedade de formatos musicais que o menos arriscado é classificá-la como pós-punk, gestou bandas que chegaram a gravar com o que então chamávamos de as majors, as multinacionais do disco, como Ira! e Titãs, e uma série de outras, que partiram para a independência e os selos alternativos.

A Marcinha entrou num projeto de new bossa com José Augusto Lemos, que então era o editor da revista Bizz, e Ângelo Barcellos, o Chance, para gravar a ultraindependente coletânea Não São Paulo, do selo Baratos Afins. Era uma banda pretensiosa (éramos todos), com mais informação sobre música do que capacidade de performá-la (como regra; as exceções são óbvias e notáveis, de pronto e de afeto consigo citar Edgard Scandurra, Thomas Pappon, Sandra Coutinho, Skowa), de alta carga póetica e experimental, mas a voz afinada, o ar blasé de musa dessa bossa eletrônica torta do concreto de São Paulo, destoava pela doçura e profundidade.

Só muito mais tarde fui entender a aventura geracional e cultural na qual nos metemos naquelas noites paulistanas, mas esse texto é sobre ela, nossa Nara Leão paulistana, essa mulher forte, meiga, poderosa que iluminava esse bando de garotas e garotos mal saídos da adolescência que tinham muitas ideias na cabeça, alguns instrumentos na mão e uma vontade enorme e generosa de mudar aquele Brasil pensando em como fazer arte, cultura e, sim, jornalismo com, no mínimo, honestidade intelectual.

Que a terra lhe seja leve, Marcinha.

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