Os Grandes Vulcões, peça do Coletivo Comum
Os Grandes Vulcões, peça do Coletivo Comum - Foto: Liênio Medeiros6

O que é verdadeiro, o que é falso?, questiona o ator, diretor, poeta, roteirista e dramaturgo inglês Harold Pinter, para ele próprio responder: “A verdade na dramaturgia é sempre fugaz”. A fala está presente no discurso de Pinter ao receber o Prêmio Nobel de Literatura de 2005 e também na peça Os Grandes Vulcões. Autêntica aula de história, a montagem do Coletivo Comum propõe um sofisticado jogo de questionamentos e reflexões sobre fatos contemporâneos para provocar a plateia a buscar “a verdade real de nossas vidas e nossas sociedades”.

Gravado no Galpão do Folias entre 8 e 12 de abril, o espetáculo se autointitula videoteatro e é um registro que mescla teatro e cinema. As próximas apresentações, dias 15 e 21 de maio, ocorrem para o Espaço Cultural Al Janiah e a Unifesp (confira as datas nas redes sociais da companhia). 

No palco, Fernanda Azevedo se assume como “atriz” e, ao mesmo tempo, “Harold Pinter”, iniciando a provocação presente no discurso do laureado: até que ponto o teatro pode representar a verdade? O roteiro segue a fala de Pinter, mas não deixa de fazer cirúrgicas intervenções a partir de fatos que rondam a América Latina e o Brasil, em especial.

O texto original pontua temas da geopolítica mundial partindo de uma constatação irrefutável: depois da Segunda Guerra, a política externa dos Estados Unidos tem sido pouco escrutinada, apesar dos pesares. O mundo aplaude os norte-americanos que invadem outros países e impõem ou engendraram ditaduras de direita mundo afora. Nicarágua, Indonésia, Grécia, Uruguai, Brasil, Paraguai, Haiti, Turquia, Filipinas, Guatemala, El Salvador e Chile servem de exemplo. E, claro, com aceitação de países amigos ou submissos, como o Reino Unido, pontua Pinter.

A atriz Fernanda Azevedo narra esse texto apoiada por uma lousa de vidro e um globo terrestre de 2,5 metros de diâmetro contendo um mapa de 1570, nomeado de Theatrum Orbis Terrarum, o primeiro a representar o mundo todo, de polo a polo. Com roteiro, pesquisa musical e direção geral de Fernando Kinas, a montagem faz um ligeiro passeio pelo teatro documental e traz acréscimos de textos, músicas e imagens que avolumam o discurso de Pinter. Há desde canções como Je T’Aime, moi Non Plus, de Serge Gainsbourg, a Comentários a Respeito de John, de Belchior, e cenas de filmes como Rambo III, Bang Bang, de Andrea Tonacci, e Terra em Transe, de Glauber Rocha.

O Coletivo Comum foi criado em 2018, a partir da reformulação da Kiwi Companhia de Teatro, que já encenou textos de Samuel Beckett a Plínio Marcos. A peça Os Grandes Vulcões, cujo nome é remissão a um poema de Pablo Neruda, também trata de temas do momento, como a desinformação e a pós-verdade. Em uma internet que ajuda a perpetuar a lógica capitalista como sendo a única possível, bem faria o grupo se abrisse esse vídeo e sonhássemos que ele viralizasse. Seria uma potente aula aberta de história.

Os Grandes Vulcões. Com o Coletivo Comum. No Facebook e Youtube, dias 15 e 21 de maio.

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