Além das lendas. Capa. Reprodução
Além das lendas. Capa. Reprodução

Em “Além das lendas” o historiador e roteirista Iramir Araújo se alia a Amanda Belo, Beto Nicácio, Marcos Caldas, Rom Freire e Ronilson Freire, cada um desenhando uma das histórias do álbum, recontando uma lenda.

Em vez do “era uma vez” a que estamos tão acostumados, há uma mudança na angulação pela qual as histórias são contadas. Em “Quando a serpente acordar”, desenhada por Marcos Caldas, vemos São Luís submersa a partir de um submarino, com “A serpente (Outra lenda)”, de Celso Borges, Ramiro Musotto e Zeca Baleiro, de trilha sonora. Reside ali também um alerta, quase óbvio, mas ainda assim assustador: nada teremos aprendido, como humanidade, ao fim da pandemia.

Iramir Araújo, historiador, artista gráfico, desenhista e roteirista, já havia adaptado aos quadrinhos “O mulato” (2019), de Aluísio Azevedo, com desenhos de Ronilson Freire. Volta a percorrer paisagens maranhenses, sem soar provinciano. A história desenhada por Ronilson em “Além das lendas”, sobre o Palácio das Lágrimas, onde funcionou a Faculdade de Farmácia da Universidade Federal do Maranhão, nos leva ao inevitável paralelo: após a tragédia narrada na lenda (e além, como anuncia o título do álbum), lágrimas ainda são vertidas pelo abandono e descaso da gestão de Natalino Salgado como reitor da Ufma, que legou ao prédio na esquina das Ruas da Paz e 13 de Maio, no Centro da cidade, o status de ruína.

Beto Nicácio desenha “O olhar da Manguda”, lenda que já nasce com outra dentro de si: sugere-se que tenha sido uma “farsa idealizada por comerciantes que burlavam a Fazenda, contrabandeando mercadorias, usando portos alternativos para ludibriar a fiscalização”, como diz o texto de abertura. A história se passa no entorno do Largo dos Remédios e, trazida à atualidade, tem a violência em seu bojo. Ou seja, como “O mulato” vertido aos quadrinhos, permanece atual.

Completam o álbum, selecionado em edital de Economia Criativa parceria do Sebrae e Fapema, “O rei encoberto”, em que Rom Freire redesenha a lenda de Dom Sebastião, e “Das lágrimas de Arabi”, que conta a história da lenda da praia do Olho d’Água, surgida de uma história de amor entre dois indígenas, no traço de Amanda Belo.

“Lendas são como sonhos, só existem quando acreditamos nelas. Eu não duvido de nada, ainda mais depois dessa viagem aqui. Ta com medo?”, atesta e provoca o jornalista e poeta Celso Borges, no prefácio do álbum.

Mauro Borralho, diretor técnico do Sebrae no Maranhão, é certeiro no título de seu texto, outro que antecede as cinco lendas: “criativos do Maranhão pedem passagem”. O álbum provocará reações entre reaproximação e estranhamento com as lendas e em qualquer das situações terá cumprido bem o seu papel.

Serviço: “Além das lendas”; Ira! Quadrinhos, 2021, 68 p.; preço sob consulta pelo e-mail [email protected]; roteiros de Iramir Araújo e desenhos de Amanda Belo, Beto Nicácio, Marcos Caldas, Rom Freire e Ronilson Freire.

DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome