O cantor camaronês Yamaya Mohamed em frente ao cinema. Foto: Loiro Cunha
O cantor camaronês Yamaya Mohamed em frente ao cinema. Foto: Loiro Cunha
Cine Marrocos. Cartaz. Reprodução
Cine Marrocos. Cartaz. Reprodução

Antíteses e contradições, num perfeito retrato da realidade brasileira, que equilibra o orgulho por símbolos nacionais – como o samba, o futebol e o carnaval – à brutal desigualdade social. Esta inequação percorre os 76 minutos de “Cine Marrocos”, em que o premiado diretor Ricardo Calil (“Uma noite em 67”, “Narciso em férias”) usa o cinema para fundir realidade e ficção em uma obra-prima que venceu o É tudo verdade de 2019.

Inaugurado em 1951, o suntuoso Cine Marrocos, no centro de São Paulo, abrigou o primeiro festival internacional de cinema realizado no Brasil, em 1954, evento que contou com a presença de astros e estrelas hollywoodianos, ocasião em que foram exibidos títulos como “A grande ilusão”, de Jean Renoir, “Júlio César”, de Joseph L. Mankiewicz, “Noites de circo”, de Ingmar Bergman, “O crepúsculo dos deuses”, de Billy Wilder, e “Pão, amor e fantasia”, de Luigi Comencini.

Em 2015, quando o filme começou a ser realizado, cerca de dois mil sem-teto oriundos de 17 países – sobretudo latino-americanos e africanos, além de brasileiros – ocupavam as instalações, desativadas há mais de 20 anos. Em meio a processos de reintegração de posse e preconceitos contra sem-teto, imigrantes e refugiados, a equipe de Calil reabriu temporariamente o prédio, reexibiu os clássicos da programação do festival de 1954 e, após uma oficina de teatro, convidou alguns dos que ocupavam o Cine Marrocos a recriarem cenas dos filmes.

Em um primor de montagem (Jordana Berg), o filme toca em temas como o próprio cinema, desigualdade social, dignidade humana e violência, em um processo que acompanha a oficina de teatro, a recriação das cenas dos clássicos da sétima arte e entrevistas que buscam refazer os caminhos de cada um até ali.

O jornalista Junior Panda teve seu pai, ex-servidor da ditadura do Congo, assassinado pela mesma. Perseguido, fugiu para sobreviver. Em Lingala, língua de seu país natal, refaz o papel de Jean Gabin em “A grande ilusão”. A ex-bailarina brasileira Volusia Gama caiu em depressão após seu pai sofrer um derrame e ela ser forçada, aos poucos, a fechar a academia que tinha. Ela assume o papel de Norma Desmond, vivida por Gloria Swanson em “O crepúsculo dos deuses”. O monólogo de Marco Antônio em “Júlio César”, originalmente interpretado por Marlon Brando, é transformado em rap pelo cantor camaronês Yamaya Mohamed.

Em uma cena anterior ao processo, é um desconfiado Valter Machado – chega a citar uma passagem bíblica do livro de Jeremias, afirmando que um homem nunca deveria confiar em outro – quem sugere à produção que os filmes deveriam ser exibidos, permitindo que os próprios moradores que se dispusessem a atuar, escolhessem que papéis desejariam fazer. Ele próprio participa, após essa lição de dignidade. Um deles revela que gostaria de fazer o papel de alguém que sofra bastante, por que é o que ele conhece de verdade. Realidade e ficção, brutalidade e delicadeza caminham de mãos dadas, entre encontros regados a “Nine out of ten” (Caetano Veloso): “nove em cada dez estrelas de cinema me fazem chorar/ eu estou vivo, muito vivo”.

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Veja o trailer:

Serviço: “Cine Marrocos”, documentário, Brasil, 2018, 76 minutos. Direção: Ricardo Calil. Estreia 3 de junho nos cinemas.

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